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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Trilhas Pelo Mundo 15

Cinder - Marissa Meyer



Oi pessoal, mudando um pouco a maneira de fazer a coluna, resolvi resenhar os livros que mais gostei de ler por aqui, ao invés de me ater somente nas nacionalidades dos autores. Esse é um deles e espero que gostem da resenha!

Livro: Cinder
Editora: Rocco
Tradutor: Maria Beatriz Branquinho da Costa
Páginas: 256
Link do Skoob


Sinopse: Num mundo dividido entre humanos e ciborgues, Cinder é uma cidadã de segunda classe. Com um passado misterioso, esta princesa criada como gata borralheira vive humilhada pela sua madrasta e é considerada culpada pela doença de sua meia-irmã. Mas quando seu caminho se cruza com o do charmoso príncipe Kai, ela acaba se vendo no meio de uma batalha intergaláctica, e de um romance proibido, neste misto de conto de fadas com ficção distópica. Primeiro volume da série As Crônicas Lunares, Cinder une elementos clássicos e ação eletrizante, num universo futurístico primorosamente construído.

Minha opinião: Cinder é um livro que me surpreendeu muito. Eu sabia que pelo nome só poderia ser uma releitura de conto de fadas, mas só a ideia inicial de ser uma órfã com uma madrasta má e duas irmãs é que está lá (claro, também temos o príncipe!). Para quem conhece aquele anime/mangá antigo chamado Sailor Moon (do qual a autora é fã) será fácil identificar mais algumas referências como a princesa de Luna (Luna é a Lua) desaparecida e a rainha de lá, que é má, atrás dela.
A história em si não tem nada de muito original, a inovação é o fato de a personagem principal, Cinder, ser uma ciborgue. Ciborgues são seres humanos modificados. Eles tem partes mecânicas, inclusive no cérebro, e na sociedade em que ela vive não são considerados humanos e não tem direitos de humanos. 
O que contribuiu realmente para esse livro ter se tornado um dos meus favoritos do momento foi a narrativa. A autora narra de maneira muito fluída e mesmo que não consiga manter o grande segredo da narrativa assim tão secreto (afinal, eu já assisti Sailor Moon) tudo o que ocorre é muito bom de ler e você não consegue parar até chegar ao final. Não é cansativo e Cinder não é chata e cheia de dúvidas. O príncipe, Kai, não é nenhum desmiolado e sim alguém que sabe o que precisa fazer para conduzir o seu reino, mesmo que isso requeira sacrifícios de sua parte. 
Recomendo a leitura para todos que gostam de contos de fadas e para aqueles que acham que está na hora de modernizá-los um pouco, deixando que a mocinha da história seja quem salva a si mesma ao invés de esperar pelo príncipe.






sexta-feira, 21 de março de 2014

Trilhas Pelo Mundo 14

A Coisa Terrível Que Aconteceu Com Barnaby Brocket - John Boyne





John Boyne: Nasceu na Irlanda, em 1971, e mora em Dublin. Escreveu outros seis romances e foi traduzido para mais de quarenta idiomas. Seu livro mais célebre, O menino do pijama listrado (2007) lhe rendeu dois Irish Book Awards, vendeu mais de 5 milhões de exemplares pelo mundo e foi adaptado para o cinema em 2008. Saiba mais.







Livro: A Coisa Terrível Que Aconteceu Com Barnaby BrocketAutor: John Boyne
Editora: Companhia das Letrinhas
Tradutor: Érico Assis
Páginas: 256
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SinopseA família Brocket tinha muito orgulho de ser perfeitamente normal. Alistair, Eleanor e seus dois filhos moravam numa casa normal, num bairro normal, onde faziam coisas normais, sempre evitando que algo fora do comum pudesse acontecer. E assim levavam uma vida pacata e sem sobressaltos - até o dia em que Barnaby Brocket veio ao mundo. Bastou o caçula nascer para todos perceberem que ele era um pouco diferente: logo que se separou do corpo da mãe, o bebê foi parar no teto do hospital... Ele flutuava! E aquela incapacidade de ficar com os pés no chão, que no começo parecia apenas uma esquisitice de criança, com o tempo se transformou num verdadeiro problema para seus parentes. Afinal, como seria a reação dos vizinhos quando descobrissem essa peculiaridade do filho mais novo dos Brocket? Barnaby virou motivo de vergonha. E depois de longos oito anos, quando o caso parecia não ter mais solução, Alistair e Eleanor decidem dar um ponto final nesse sofrimento. O garoto é abandonado à sua própria sorte e começa a flutuar sem destino. Mas, assustado e surpreso com o que tinha acabado de acontecer, Barnaby mal sabia que esse era apenas o começo de uma viagem pelo mundo, em que conheceria lugares impressionantes e pessoas muito especiais - que, como ele, não eram tão normais assim.


Minha opiniãoEste é um livro infanto-juvenil que eu recomendaria para todas as idades. John Boyne consegue nos prender do início ao fim com uma narrativa cativante e as ilustrações simples e significativas de Oliver Jeffers  nos deixam adentrar cada vez mais no mundo em que Barnaby vive – que não é outro senão o nosso próprio. Em alguns momentos a facilidade com que deixam uma criança andar por aí me lembrou a série de livrosDesventuras em Série, também publicado pela Cia Das letras, porém os adultos nem de longe são tão tapados quanto os que conviveram com os órfãos Baudelaire.
"Mas, enfim, a questão é que, só porque sua versão de normal não é a mesma dos outros, não quer dizer que você tem algo errado."
Barnaby é um menino que nasceu com uma característica peculiar: ele flutua. Ele não pode controlar isso e, por mais que seus pais insistam, não pode parar de flutuar e virar uma pessoa normal. Ou o tipo de pessoa que eles consideram normal porque, afinal, o que é ser normal? Essa questão é o grande tema do livro e aparece na reflexão de vários personagens até chegarmos ao final onde o próprio Barnaby reflete sobre isso e toma uma decisão que mudará a sua vida.
A jornada de Barnaby pelo mundo após a “coisa terrível” é marcada pelo encontro com diversas pessoas que vão mudando os conceitos do menino sobre o que é ser normal e  ele vai compreendendo aos poucos que não está sozinho no mundo dos que são considerados anomalias. Cada um tem a sua própria “coisa terrível” e percebemos aos poucos que pouca coisa é aceita dentro desta normalidade. Que tudo tem um padrão e nada diferente dele pode ser considerado adequado. Como se sete bilhões de pessoas fossem iguais.
"(…)Em alguns momentos ela pensava ter feito a coisa certa. Afinal de contas, ele era um garotinho teimoso demais, que se recusava a mudar. Porém, às vezes, ela se perguntava por que fora incapaz de amá-lo do jeito que ele era. Afinal, sempre tivera orgulho do fato de ser uma mãe absolutamente normal com uma família completamente normal. Mas era tão normal assim fazer o que ela fez? Será?"
Em certo momento da narrativa o menino encontra-se com um grupo de pessoas consideradas anormais e percebe que elas são hostilizadas por um homem. Ele pergunta a eles por que não se voltam contra o homem pois ele é um só e eles muitos. Neste ponto percebemos a ideia de que como aberrações eles merecem o tratamento que lhes dão. Que existe algo errado com eles e as pessoas normais podem aproveitar isso para lidar com os não-normais da maneira que lhes aprouver; eles tem medo do que é diferente.
Os grandes vilões do livro são os pais de Barnaby. Gostei muito da maneira que o autor explicou as atitudes dos pais para com ele. Geralmente não encontramos as motivações dos vilões em livros infanto-juvenis, mas com uso de flashbacks na hora certa sabemos porque eles são tão obcecados em “ser normal”.
Conforme Barnaby avança na narrativa ele percebe que muitas pessoas consideradas diferentes tiveram que abandonar as suas famílias para que pudessem seguir em frente. Pois se não há apoio na família a pessoa não pode estagnar no lugar e viver de forma incompleta. Se para seguir em frente é preciso ir sozinho, então que seja. Mas existem todos os tipos de problemas familiares, inclusive o problema de não se ter uma família.
"E aí ocorreu a Barnaby que ser normal não era tudo isso que diziam. Afinal de contas, quantos garotos que se dizem normais já haviam passado pelas mesmas aventuras que ele, ou conhecido as mesmas pessoas que ele? Quantos já haviam visto tanta coisa do mundo ou tanta gente pelo caminho? (…)Era normal ser tão, bom, tão normal o tempo todo"
O livro mostra a jornada do menino para aceitar a si mesmo antes de querer que os outros lhe aceitem como é.
Editora Cia das Letras (ou, no caso, Cia das Letrinhas) manteve a mesma capa do livro em inglês. Ela e as ilustrações dentro do livro são lindas e permitem que nos ambientemos no mundo infanto-juvenil proposto. A diagramação é simples e funciona muito bem. A tradução e revisão ficaram ótimas, sem nenhum erro perceptível.

(Resenha publicada por mim originalmente no site www.entrandonumafria.com.br)

Até a próxima o/
Fran.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Trilhas Pelo Mundo 13

Prince of Thorns - Mark Lawrence






Mark LawrenceMark Lawrence é um escritor de dupla nacionalidade (americana e britânica). Ele é autor dos livros da Trilogia dos Espinhos (de nome original The Broken Empire). Lawrence nasceu nos Estados Unidos , mas ainda jovem ele e seus pais se mudaram para o Reino Unido. O primeiro trabalho de Lawrence foi Prince of Thorns, publicado pela Ace/Voyager em agosto de 2011 e foi finalista dos prêmios Goodreads Choice Award (como Melhor Livro de Fantasia de 2011), David Gemmell Morningstar Award de 2012.
Seu segundo livro King of Thorns, publicado em Agosto de 2012 na Inglaterra, foi de novo finalista do mesmo premio de 2012 da Goodreads, ficando na quarta posição de melhor livro.
Seu trabalho foi traduzido em 19 idiomas. E no Brasil, seus livros saem pela editora Darkside. Veja mais.



Livro: Prince of Thorns
Autor: Mark Lawrence
Editora: DarkSide® Books
Tradutor: Antônio Tibau
Páginas: 360
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Sinopse:Tem início a Trilogia dos Espinhos: Ainda criança, o príncipe Honório Jorg Ancrath testemunhou o brutal assassinato da Rainha mãe e de o seu irmão caçula, William. Jorg não conseguiu defender sua família, nem tampouco fugir do horror. Jogado à sorte num arbusto de roseira-brava, ele permaneceu imobilizado pelos espinhos que rasgavam profundamente sua pele, e sua alma. O príncipe dos espinhos se vê, então, obrigado a amadurecer para saciar o seu desejo de vingança e poder. Vagando pelas estradas do Império Destruído, Jorg Ancrath lidera uma irmandade de assassinos, e sua única intenção é vencer o jogo. O jogo que os espinhos lhe ensinaram. 

Minha Opinião: Este não foi um livro que me prendeu desde o início. Até as primeiras cem páginas ele não era nada de mais, porém quando o jogo dos tronos foi revelado, aí sim, ele se tornou algo.
Jorg, ou príncipe Honório Jorg Ancrath, é um personagem muito interessante. Ele vira praticamente um psicopata após um trauma sofrido na infância e fixa a ideia de que quer se tornar imperador.
O império está dividido em vários reinos, cada um com seu rei e eles estão sempre em guerra. A ambição de todos os reis é tornar-se imperador, tendo assim conquistado todos os reinos, porém não é uma tarefa fácil e desde a dissolução do império ninguém conseguiu. Jorg e seu bando de mercenários (ou irmandade de assassinos) tentam conquistar o seu lugar nessa luta de maneira visceral e sanguinária. Ninguém se importa em matar, saquear ou estuprar por aqui, já que todos sabem que é assim que os reinos são conquistados. Porém, mérito do autor, nenhuma violência é contada de maneira detalhista, de maneira que não ficamos com visões grotescas na mente enquanto lemos.
A narrativa é feita em primeira pessoa pelo príncipe Jorg e podemos notar a maneira um pouco perturbada de sua narrativa já que ele é uma pessoa perturbada. Ele não é o heroi da história e sim o anti-heroi e em vários momentos é possível pensar que talvez não tenha nada de bom nele. O próprio personagem repete que ele não vale nada, mas aos poucos, conforme a narrativa avança percebemos que isso é o que ele quer acreditar, porém não é bem assim. Ele não conseguiu se afastar totalmente de seus sentimentos e ser um assassino frio. Ainda existe algo dentro dele que não está morto e não é só sede de poder e vingança.
A trama é bem desenvolvida e dinâmica. As coisas acontecem rápido e algumas vezes tive que voltar à página anterior para saber se não tinha pulado nada. O livro nunca fica chato. Sempre tem algo acontecendo, mesmo que seja só os pensamentos sarcásticos de Jorg. 
Esse também é um dos problemas do livro, já que algumas coisas acontecem tão rápido que deixa a sensação de que o autor está correndo para chegar na parte em que ele quer contar e esquece de se aprofundar um pouco mais em outros acontecimentos transitórios, causando um anti-clímax algumas vezes.
A capa do livro é linda. A editora fez um ótimo trabalho usando as cores vermelho e preto. Combina muito bem com o clima do livro. A parte interna do livro também é graficamente muito bonita e confortável para ler. 
Este livro é recomendado a todos que gostam de uma trama envolvente e misteriosa, fantasia e histórias que saem um pouco do lugar comum.


Até a próxima o/
Fran.




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Trilhas Pelo Mundo 12

Haroun e o Mar de Histórias - Salman Rushdie





Sir Ahmed Salman Rushdie: Nasceu em 1947 em Bombaim, Índia, numa família muçulmana liberal. Autor do polêmico Versos Satânicos que lhe rendeu sentença de morte promulgada pelo aiatolá Khomeini.












Livro: Haroun e o Mar de Histórias
Autor: Salman Rushdie
Editora: Companhia de Bolso
Tradutor: Isa Mara Lando
Páginas: 184
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SinopseRashid viva de contar histórias em comícios. Todos os políticos o procuravam. Mas um dia ele perde o dom da palavra. Seu filho Haroun descobre que é preciso ir ao grande Mar de Histórias. Enfrenta guerreiros das sombras. E percebe que as histórias do mundo estão ameaçadas de extinção.


Minha Opinião: Este é um livro infanto juvenil cheio de imaginação. Haroun é um menino inicialmente desiludido, pois logo no início do livro algo traumático acontece com ele e seu pai, que não é ninguém menos que o Xá do Blá Blá Blá, o contador de histórias. Ele que já achava essa manina de contar historias do pai uma chatice, acaba tendo que ajudá-lo a se recuperar, já que com o trauma ele perde o dom da palavra e perde o "emprego" de contador de histórias nos comícios. 
Acompanhamos Haroun, que vai descobrindo que as histórias que seu pai contava não eram somente histórias e que havia muito mais por trás disso. Todo um mundo onde existe um mar dessas histórias. O menino descobre que tem muito sobre si mesmo que não sabe. Que tem mais coragem e esperteza do que acreditava ter e acaba sendo um heroi para o lugar. 
Alguns temas interessantes são abordados na narrativa, mas todos superficialmente. Dois países são inimigos porque não se deram ao trabalho de conhecer o povo um do outro e descobrir o porquê de terem determinadas atitudes. Assim, quando uma criança resolve os problemas e gera a paz entre estes países/reinos, tudo fica bem.

É uma leitura rápida e recomendada pra quem gosta de fantasia.

Até a próxima,
Fran.






sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Trilhas Pelo Mundo 11

Precisamos Falar Sobre o Kevin - Lionel Shriver


 
Este é um livro que terminei e não consigo tirar da cabeça. Também preciso falar sobre o Kevin.


   Lionel Shriver: Nasceu em 1957, é uma jornalista e escritora americana. Precisamos Falar Sobre o Kevin foi rejeitado por pelo menos 30 editoras antes de conseguir ser publicado. O livro ganhou o prêmio Orange em 2005 na Grã-Bretanha. Aqui tem outras obras da autora, inclusive o recém lançado Grande Irmão.


Livro: Precisamos Falar Sobre o Kevin
Autor: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca
Tradutor: Beth Vieira e Vera Ribeiro
Páginas: 464

SinopseLionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos.
Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem.
Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o "sociopata inatingível" que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.


Minha Opinião: Este é um livro que não poderá ser facilmente digerido. Conhecemos a mãe de Kevin, Eva, enquanto ela escreve cartas ao marido para poder falar sobre a vida que tinham e como esta se tornou até chegar a quinta-feira, momento decisivo onde ocorreu a tragédia que abalou a sua vida.
Um romance epistolar muito bem construído abordando vários temas pouco utilizados como o fato de uma mãe ser capaz de não amar o próprio filho.
Em vários momentos o livro fica um pouco chato porque Eva está falando com o marido por carta, contando detalhes sobre seu modo de vida que podem não interessar ao leitor tanto quanto a história de Kevin, que só conhecemos por completo quase no final do livro, pois a ordem das cartas segue a cronológica na reconstituição do que aconteceu na vida desta família.

Através da narrativa temos uma visão completamente parcial sobre os acontecimentos, portanto tudo o que a narradora pensava é algo só dela. Mesmo que ela tenha percebido coisas no filho que o marido não percebeu, acredito que vários fatos relatados por ela não podem ser totalmente atribuídos a Kevin, pois afinal, ele era só uma criança e, a não ser que você leitor pense que a maldade pode já nascer com a criança, não há cabimento em algumas das paranoias de sua mãe. Porém existe muita verdade no que Eva nos conta, pois ela apresenta provas.
A grande questão do livro é que Eva não queria ter filhos. Ela ama seu marido e quer lhe dar um filho como presente, mas desde o momento em que começa a tentar engravidar ela já não quer realmente o bebê. Ela percebe que o bebê é um fardo e que corrompe a sua rotina. Quando Kevin nasce e ele a rejeita, não é mais do que a rejeição que ela mesma sentia desde a sua concepção. Isso levanta outra grande questão que é: O quanto os pais são responsáveis pelo que o filho se torna? E como quem não dá amor pode querer recebê-lo ou querer ensinar seu filho a demonstrá-lo?
Também o pai que idealiza o filho de uma forma tão consistente que não consegue enxergá-lo como ele é, pois só quer ver aquilo que planejou ver e ignora qualquer outra opinião que é apresentada. Essa atitude pode facilmente ser confundida com amor, mas não é. Um pai que deixa um filho sem punição não é pai, é cúmplice. Esse pai não ama, só ignora no filho aquilo que não se encaixa em sua idealização.

No Brasil a onda de massacres em escolas não foi grande, mas nos EUA isso se tornou moda e acredito que um livro que trate tão profundamente do tema entrando na vida de uma dessas crianças (mesmo que fictícia) tenha ajudado algumas pessoas a compreenderem um pouco mais. Vários casos famosos são comentados durante a narrativa e a quantidade é alarmante. E é assustador ver quais foram as medidas tomadas para tentar proteger as escolas disso. Medidas extremistas que só poderiam gerar mais ódio.

Durante a narrativa tive a impressão de conhecer o Kevin, de entender um pouco suas motivações para tomar tal atitude e odiar a mãe - como disse que odiava quando ela o visitou na prisão. Porém até chegar ao final da leitura tudo aquilo que achei que sabia sobre ele desmoronou ao perceber a gravidade de seus atos, já que a quinta-feira em que o crime aconteceu só é totalmente descrita no final.

Este livro é recomendado para todos que gostam de ter os meios para fazer sua própria análise psicológica, já que ela aqui não vem pronta. Para quem tem curiosidade para saber como um daqueles garotos Comlumbine (Kevin não gostaria desta expressão) se comporta e o que o leva ao extremo de realizar uma chacina.
Não é recomendado para quem não gosta de ficar com um livro na cabeça após terminar a leitura, porque não consigo parar de falar sobre o Kevin.

Minha opinião sobre o livro é basicamente a citação escolhida pela autora e colocada na página antes da primeira carta começar:
"É justamente quando ela menos merece que mais a criança precisa do nosso amor." - Erma Bombeck


Até a próxima,
Fran.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Trilhas Pelo Mundo 10

O Processo - Franz Kafka


Hoje na coluna falarei sobre este livro que deu nó no cérebro de muita gente!



Franz Kafka: (1883-1924) Nasceu em Praga na Áustria- Hungria (atual república Checa). Considerado um dos maiores escritores de ficção do século XX, Kafka retratou em seus principais trabalhos (até mesmo porque tem muitos incompletos) A Metamorfose, O Processo e O Castelo uma certa aversão à burocracia.
O autor perdeu seus irmãos durante a Segunda Guerra Mundial, pois a família era de judeus.
Devemos agradecer a seu grande amigo, Max Brod, a quem Kafka pediu que destruísse todas as suas obras após a sua morte, mas que fez justamente o contrário.






Livro: O Processo
Autor: Franz Kafka
Editora: Martin Claret
Tradutor: Torrieri Guimarães
Páginas: 255

Sinopse: O Processo (1925), publicado postumamente, conta a história do bancário Josep K., que, por razões que nunca chega a descobrir, é preso, julgado e condenado por um misterioso tribunal. Nesse romance, a ambigüidade onírica do peculiar universo kafkiano e as situações do absurdo existencial chegam a limites suspeitados. A Ação desenvolve-se num clima de sonhos e pesadelos misturados a fotos corriqueiros, que compõem uma trama em que a irrealidade beira a loucura.

Minha Opinião: Este não é um livro fácil de ser lido, porém é bom pensar enquanto se lê que este livro não é sério. Que é uma comédia. Pois acho que era assim que Kafka estava tentando retratar o sistema judiciário ao qual ataca no livro.


"Alguém deve ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã."

Josep K, personagem principal, acorda pela manhã e descobre que está detido pois está sendo sendo feito um inquérito sobre algo e K está sendo acusado. A grande questão é: de quê estão acusando K? Pois é melhor o leitor se conformar pois isso não será respondido.
Não é à toa que a expressão kafkiana existe. Quando alguém diz que está em um dilema kafkiano ou diz que este é um universo kafkiano, a pessoa quer dizer que é algo difícil de ser explicado ou entendido. A expressão foi criada por causa deste tipo de texto escrito pelo autor. Portanto, posso dizer que este é um livro que se enquadra perfeitamente em um universo kafkiano e isso quer dizer que o livro é absurdo e surreal.
Os capítulos do livro se mesclam entre o dia a dia de K, que são quase normais fora a sua perseguição pelas mulheres, e a absurda burocracia do processo. Inicialmente K quer saber sobre o que é acusado, mas as explicações para isso não são dadas. É dito somente que não compete a ninguém comentar o caso, somente a um oficial superior - oficial este que K não consegue encontrar. Quando o personagem fala com seu advogado sobre o assunto, quando seu advogado acaba de preparar seu primeiro texto de defesa, entendemos que nem ele sabe sobre de que se trata esse processo.
A burocracia é apresentada no livro de maneira chata. Chata por que fala de burocracia e chata porque são parágrafos longos sem muitas falas intercaladas (especialmente no capítulo VII: O Advogado. O Fabricante. O Pintor). Acredito que este tenha sido o propósito, apresentar a chatice da burocracia não só por meio de explicações mas fazendo o leitor sentir na pele a inutilidade de tantos trâmites. O personagem desde o inicio questiona o porquê de as coisas funcionarem desta maneira e se mostra desacreditado com o sistema judiciário. Mas, assim como todos, ele precisa passar por esse sistema par ver-se livre de seu processo.
Este é um livro recomendado para quem tem interesse em advocacia pois vai tratar de forma bem humorada sobre os trâmites legais aos quais um acusado precisa passar (nem tudo é realidade, afinal, é um mundo kafkiano) e mostrar como a justiça enrola-se em si mesma ao invés de desenrolar-se. Recomendado também para quem gosta de um universo que misture realismo com elementos fantásticos. Eu gosto muito do autor Haruki Murakami que é fã de Kafka e que escreve seus livros dentro de um universo de realismo fantástico e recomendo a leitura a todos que não tem medo de desafios!
Esta edição que li é a da Martin Claret. Faz parte da coleção "A Obra-Prima de Cada Autor" e vem com um prefácio onde o tradutor conta um pouco sobre a vida de Kafka e esclarece um pouco o porquê de ele ter escrito dessa forma.

o/
Fran.





sexta-feira, 10 de janeiro de 2014


Trilhas Pelo Mundo 9


Trilogia Millenium - Stieg Larsson

Resolvi falar sobre essa trilogia aqui na coluna porque ela é boa demais para ser ignorada. E o autor da vez é Sueco.


Karl Stig-Erland Larsson: (1954 – 2004) Foi um sueco jornalista e escritor que se destacou por causa de sua trilogia lançada postumamente: A Trilogia Millenium. Ele viveu na cidade de Estocolmo e pesquisou sobre extremismo político em seu país. Sua morte se deu de forma curiosa, pois estava à frente de uma revista chamada Expo e, já que o elevador do local estava quebrado, subiu sete lances de escada e teve um ataque cardíaco provavelmente pelo esforço. Houve rumores sobre um possível assassinato, já que o autor recebia ameaças de morte devido a seu trabalho denunciando neofascistas, racistas e etc, mas a hipótese foi descartada.




Livros: 
1- Os Homens que não Amavam as Mulheres
2- A Menina que Brincava com Fogo
3- A Rainha do Castelo de Ar
Autor: Stieg Larsson
Editora: Cia das Letras
Tradutor:  Livro1- Paulo Neves, Livros 2 e 3-Dorothée de Bruchard
Páginas: Livro1-522, 2-608, 3-688

Sinopse do livro um: Os homens que não amavam as mulheres é um enigma a portas fechadas - passa-se na circunvizinhança de uma ilha. Em 1966, Harriet Vanger, jovem herdeira de um império industrial, some sem deixar vestígios. No dia de seu desaparecimento, fechara-se o acesso à ilha onde ela e diversos membros de sua extensa família se encontravam. Desde então, a cada ano, Henrik Vanger, o velho patriarca do clã, recebe uma flor emoldurada - o mesmo presente que Harriet lhe dava, até desaparecer. Ou ser morta. Pois Henrik está convencido de que ela foi assassinada. E que um Vanger a matou.
Quase quarenta anos depois o industrial contrata o jornalista Mikael Blomkvist para conduzir uma investigação particular. Mikael, que acabara de ser condenado por difamação contra o financista Wennerström, preocupa-se com a crise de credibilidade que atinge sua revista, a Millennium. Henrik lhe oferece proteção para a Millennium e provas contra Wennerström, se o jornalista consentir em investigar o assassinato de Harriet. Mikael descobre que suas inquirições não são bem-vindas pela família Vanger. E que muitos querem vê-lo pelas costas. De preferência, morto. Com o auxílio de Lisbeth Salander, que conta com uma mente infatigável para a busca de dados - de preferência, os mais sórdidos -, ele logo percebe que a trilha de segredos e perversidades do clã industrial recua até muito antes do desaparecimento ou morte de Harriet. E segue até muito depois.... até um momento presente, desconfortavelmente presente.

Minha Opinião: Preciso dizer: LEIAM. Eu também inicialmente não me interessei pela sinopse, nem pelas capas, nem pelas recomendações dizendo que era muito bom. Procrastinei a leitura até comprar a trilogia completa e agora que terminei a leitura posso dizer que os livros valem muito a pena. Lamento pelo autor ter falecido antes de poder escrever mais livros e nos deleitar com sua trama mirabolante e personagens marcantes. Mas estes três livros deixados já valem ouro.

As semelhanças do autor com o personagem Mikael Blomkvist, jornalista da revista Millenium são muitas. A ponto de eu me perguntar o quanto do livro foi autobiográfico. Mas quem rouba a cena não é ele e sim Lisbeth Salander, que tornou-se minha personagem feminina favorita de todos os tempos.

Olhando para tudo o que foi dito nos livros, os mistérios desvendados e as matérias escritas para a Millenium, posso dizer que o tema central desta trilogia é "os homens que não amavam as mulheres" pois em cada um dos livros vemos situações que remetem a ele. Temos claramente a opinião do autor quanto a isso e a forma livre com que ele encara o mundo, sem se importar com homossexualidade, diferenças de idade em relacionamentos, casamentos abertos e etc. 

As capas dos três livros ilustram a maneira que a trama é apresentada: primeiro vemos um início de fogo, depois ele se alastra até certo ponto e então tudo é incendiado. 
O primeiro livro é sobre a investigação que Mikael está fazendo sobre um suposto crime cometido há quase quarenta anos enquanto Lisbeth continua com seus problemas e trabalho na Milton Security. Confesso que quando a Lisbeth se vê em uma situação terrível e aparentemente sem saída, fiquei chocada e pensei que ela não conseguiria se libertar, que seria a vítima perfeita devido a seu estado mental (Lisbeth não é retardada como alguns acham no livro, ela tem provavelmente a síndrome de Aspenger, porém por motivos pessoais - e muito relevantes - nunca desmente o que acham dela) e que eu não iria gostar da história, pois detesto ver mulheres sofrendo abusos. Mas tive uma grande surpresa com ela, pois vítima foi exatamente o que ela não se tornou. Isso fez com que eu continuasse a leitura até o fim, mesmo que o primeiro livro não estivesse lá tão interessante, pois ele é meio parado. Mas é um livro introdutório para a verdadeira trama que se desencadeia devido a fotos que ocorrem nele.

No segundo livro já temos a consequência de algo que ocorre no primeiro e vamos aos poucos vendo o grande iceberg que está por baixo d´água e que vai se revelar totalmente somente no último livro. Aqui o foco fica maior em Lisbeth que em Mikael e entendemos um pouco mais o que se passou com ela para que se tornasse quem é hoje e fizesse as coisas do seu jeito, sem respeitar autoridades. 
No terceiro livro finalmente temos o desfecho satisfatório da trama. Stieg Larsson gosta de dar finais grandes e bem definidos pra seus livros, menos para o segundo A Menina Que Brincava Com Fogo, pois este termina em um momento crucial. 

Sem dar detalhes da trama fica difícil mostrar o porquê de essa trilogia ser tão boa, tão bem escrita. O autor nos informa vários fatos cotidianos sobre violência contra a mulher, crimes políticos, abuso de poder e outros que não são ficção. O caso de Lisbeth pode não ter acontecido de verdade, mas outros parecidos aconteceram e não tiveram um final tão feliz quanto o dela. 

Eu sou uma apaixonada por finais felizes em que todos os detalhes sejam esclarecidos e é isso o que acontece na Trilogia Millenium. O autor nos deixa chocados com as atrocidades durante o livro mas no fim o bem sempre vence. Às vezes não da maneira tradicional; mas não tem problema, porque o mal também não joga limpo.

Até a próxima o/
Fran.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Trilhas Pelo Mundo 8

A Felicidade Conjugal e O Diabo - Leon Tolstói


Esta é a primeira vez que leio um livro do Tolstói e fiquei surpresa em gostar tanto da escrita do autor.

Leon TolstóiLev Nikolayevich Tolstoi foi um escritor russo que viveu entre 1828 e 1910. Autor conhecido por suas grandes obras como Anna Karienina, A Morte de Ivan Ilitch e Guerra e Paz. Escreveu diversos livros, entre novelas, textos religiosos, romances, ensaios e etc. A maneira com que encarava o mundo e os valores que apreciava estão contidos em suas obras. Foi uma pessoa que tentou fazer a diferença no meio em que se encontrava e passar os valores que achava corretos aos demais. Viveu muitos anos e pôde assim lapidar a sua escrita. 
Aqui a lista de obras (em inglês).


Título: A Felicidade Conjugal / O Diabo
Autor: Leon Tolstói
Editora: L&PM

Tradutor: Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
Páginas: 192

Sinopse"Tolstói é o maior de todos os narradores" [Virginia Woolf]. Poucos escritores penetraram tão fundo na alma dos seus personagens quanto Leon Tolstói (1828-1910), dono de uma técnica narrativa certeira e cristalina. É o que pode ser visto neste livro, que reúne duas primorosas amostras da sua vasta obra. Publicada em 1859, "A felicidade conjugal" é a primeira obra do futuro autor de "Guerra e paz". Já o conto "O diabo" foi escrito em 1898 e publicado postumamente, em 1916. De origem autobiográfica, ambos os textos tratam das mesmas questões, caras a Tolstói: o papel do casamento, do sexo e das relações amorosas, bem como a responsabilidade moral dos indivíduos.

Minha Opinião: Este livro contém duas narrativas que foram feitas em épocas diferentes da vida do autor. A primeira, A Felicidade Conjugal, foi sua primeira obra e O Diabo foi possivelmente a sua última (já que foi publicada postumamente). Gostei da edição da L&PM por nos permitir fazer a comparação das obras, da escrita do autor e assim vermos a sua evolução. Nesta edição a tradutora explica como funcionam os nomes em russo, além de escrever a biografia resumida (muito interessante) do autor.

A Felicidade Conjugal fala sobre uma menina de dezessete anos, Mária Aleksândrovna, que se apaixona por um homem mais velho, Serguêi Mikháilitch e eles acabam se casando por amor. A maneira com que o autor conduz a narrativa é muito boa, fluída e fácil de acompanhar. Mesmo o autor sendo homem, acredito que neste texto ele conseguiu desvendar um pouco a alma de uma menina apaixonada. Conseguiu que eu lembrasse do que senti da primeira vez que me apaixonei e como tudo era lindo e fácil ao mesmo tempo em que era sofrido e dolorido. Fiquei realmente impressionada com a sensibilidade do autor em conseguir representar isso. 

A partir deste ponto, é possível que eu não consiga ficar longe de spoilers.
A personagem tenta agradar o homem amado de todas as formas. Fazendo aquilo que ele lhe pede, tocando as músicas que ele mais gosta, agindo da maneira que Serguêi mais acha ser correta a uma moça. E ela considera-se uma pessoa melhor por alcançar esse objetivo. O objetivo dele.

"(...)Sabia que ele gostava de mim - se como criança ou mulher, isso eu ainda não me havia perguntado; dava muito valor à sua afeição e, sentindo que ele me achava a melhor moça do mundo, desejava que ele permanecesse nesse engano. E, sem querer, eu o enganava. Mas ao enganá-lo eu mesma me tornava melhor. (...)"

E, mesmo notando como o ser amado a olhava, como falava com ela e tendo certeza de sua afeição, havia alguns momentos em que a insegurança de menina falava mais forte e ela sofria como só as pessoas apaixonadas conseguem: sozinha e sem motivos. Achei muito verossímil esses sentimentos conflitantes da personagem principal, Mária, pois ela jamais havia se apaixonado antes e tudo o que tinha feito era sonhar com o príncipe encantado. Ao direcionar seus sentimentos para uma pessoa real e além disso um homem já feito, que cuidava dos negócios da família, o normal era sentir insegurança mesmo. 
Quando há o casamento (não chama-se A Felicidade Conjugal à toa) entre Mária e Serguêi, ela se vê assustada diante da perspectiva de uma nova vida, totalmente diferente da que havia vivido até então. Ela sente medo e com razão, pois o marido comandaria a sua vida e ela viveria na casa com a sogra, deixando as irmãs amadas para trás. Porém, como todo casal apaixonado que se preze, a eles nada mais importava após casarem-se a não ser eles mesmos e viveram durante um tempo como se nada mais houvesse no mundo.
Mas nem tudo pode ir bem, já que existe uma inquietação nas jovens apaixonadas e sonhadoras. Pela imaturidade de Mária, ela desejava o conflito e não a paz. Queria poder provar o seu amor fazendo sacrifícios, concessões pela pessoa amada e não tendo uma vida pacata e rotineira. O coração dela ansiava em se pôr à prova, para demonstrar-se digna de Serguêi, que ela achava ser superior a ela. Dessa forma, novamente, a menina não tinha paz pois o que menos queria era estar em paz. 

"- Não desejo nada que seja impossível(...) Você molhou os cabelos - continuou, acariciando minha cabeça como se eu fosse uma criança -, tem inveja das folhas porque estão molhadas de chuva, você gostaria de ser folha, relva e chuva. Mas eu fico contente de admirá-las apenas, como também a tudo no mundo que seja belo, jovem e feliz."

A opinião de Tolstói quanto ao casamento era que as mulheres deviam ser submissas aos homens e que os homens deviam servir de guias e educadores para elas. Ele acreditava que era preciso que alguém lhes mostrasse o caminho para que pudessem ser mulheres de valor e que essa era a obrigação do homem. Isso é expressado nesta narrativa mostrando o que acontece caso não haja a total intervenção masculina na vida da jovem esposa. Inclusive com ela cobrando essa orientação de seu marido, que a seu ver, a deixou livre demais para fazer suas escolhas. O autor quando jovem também apaixonou-se por uma moça mais nova e tentou, através de cartas, moldar o seu caráter, mas fracassou.

Ambas as obras são um pouco autobiográficas pois o autor passou por situações parecidas que tiveram um desfecho diferente. Em O Diabo temos um conto onde o jovem fazendeiro se envolve com uma camponesa (camponeses eram praticamente os escravos na Rússia, pois os camponeses, antes de sua libertação, pertenciam a seus fazendeiros, que podiam vendê-los, perdê-los em jogo e etc) pois precisa "aliviar-se" de seus desejos carnais. A opinião de Tolstói sobre o assunto fica clara antes de começar o conto, pois a introdução é uma passagem bíblica falando sobre o adultério (Mateus, V, 28-30). 
E também faz uma crítica disfarçada no início do conto:

"As pessoas geralmente pensam que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores; mas isso não é inteiramente verdade. Os conservadores são comumente os jovens, porque estes querem aproveitar a vida e não tem tempo de pensar em como devem viver, e, assim, tomam como exemplo a seguir o modo de vida antigo."

Assim, Evguêni, personagem principal do conto O Diabo, comete o mesmo erro do pai ao se envolver com uma camponesa e assim cometer o pecado do adultério. 
O autor nos mostra com o conto, que mesmo que tenha sido sem intenção de pecar, de fazer o que não é certo, as consequências aparecem. Evguêni se vê em uma luta contra a tentação, mas se sente fraco o suficiente para dá-la como perdida. 
O conto tem dois finais possíveis e os dois estão no livro. Porém não se sabe qual era o final preferido de Tolstói. Ambos tem a mesma consequência: o salário do pecado é a morte. 


Fiquei muito surpresa com o autor pois para mim ele era um dos "clássicos temidos". Foi muito bom ter conhecido a escrita dele e com certeza procurarei outros títulos para continuar minha coleção. Recomendo a leitura e podem ir sem medo!

Fran.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Trilhas Pelo Mundo 7

O Jardim Secreto - Frances Hodgson Burnett





Fiz a leitura na versão original: The Secret Garden, porém temos a versão em português também, além de adaptação cinematográfica:



Vamos primeiramente conhecer um pouquinho sobre a autora:

Frances Hodgson Burnett (1849-1924)- foi uma escritora inglesa que viveu nos EUA desde 1865. Após casar-se em 1872 viveu em Paris por 2 anos, onde teve seus dois filhos, e retornou aos EUA. Divorciou-se em 1898 e casou-se novamente em 1900, porém divorciou-se em 1902.
Seus livros traduzidos para o português foram os infantis O Pequeno Lorde, A Princesinha e O Jardim Secreto.

É possível conferir a lista completa de suas obras aqui 

Título: The Secret Garden
AutorFrances Hodgson Burnett
Editora: Penguin Books
Páginas: 276
Link do livro no Skoob em inglês


SinopseUm livro delicado, meigo e muito mágico. Conta a história da jovem Mary,uma menina mal-humorada e infeliz que acaba indo morar na casa de um tio seu, após o falecimento de seus pais.A casa é uma mansão nas charnecas,um lugar que ela escolhe odiar. Porém, vendo que não há outra forma e que ela terá que ficar lá, a menina decide explorar o local. Acha um velho jardim trancafiado em uma de suas explorações e decide cuidar dele com a ajuda de dois amigos. Mostra do começo ao fim o crescimento de Mary e de seus amigos.


Minha OpiniãoConheci primeiro esta história através do filme que assisti e ela me encantou.
Conhecemos Mary, uma criança de 10 anos negligenciada pelos pais. Eles vivem na Índia e quando ela vai morar na Inglaterra na casa do tio começa a aprender realmente o que é viver. Esta é uma história sobre encontrar a felicidade nas pequenas coisas da vida, ter esperança, conhecer as pessoas por aquilo que elas são e não pelo que tem, aprender a amar e muitas outras coisas bonitas.

O fato de Mary passar a gostar de viver não tem nada a ver com o tio, que também a negligencia. Quem vai busca-la e levá-la para casa é a governanta e o tio não se dá nem ao trabalho de conhecê-la (pois nunca a viu antes) antes de ele ir viajar. Mary passa então a frequentar os jardins para passar o tempo e lá ela descobre um mundo novo. Conforme se adapta a sua nova vida ela também se adapta a nova pessoa que está se tornando. A autora usa o fato de Mary estar engordando (porque está comendo com mais apetite, já que passo o dia fora de casa ao contrário do que costumava fazer) como um termômetro de sua melhora. E, assim como o jardim que ela tenta cultivar floresce, ela e a outra criança negligenciada da história também vão ganhando vida e vontade de viver.

A narrativa nos mostra o caráter maleável das crianças e a capacidade de aprendizado. Ninguém é simplesmente ruim ou bom. Todos tiveram um tipo de criação que influenciou naquilo que se tornaram. Temos o exemplo do bom menino em Dickon, irmão da empregada Martha, que ama os animais e teve uma mãe e irmãos amorosos ao seu lado enquanto crescia. Ele tornou-se alguém prestativo, bondoso, com sensibilidade para com os sentimentos dos outros. Bem diferente de Mary. Aos poucos as crianças interagem com o jardim e ele com elas, e as mudanças vão acontecendo de maneira natural. e você não consegue parar de ler pois foi cativado.

Leitura recomendadíssima para todos!!

*A leitura em inglês é bem tranquila, não tem palavras muito difíceis e nem muitas expressões. Quem tem inglês intermediário já pode se arriscar.

Até a próxima o/
Fran.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Trilhas Pelo Mundo 6

Sombra e Ossos - Leigh Bardugo





Leigh BardugoLeigh Bardugo nasceu em Jerusalém, foi criada em Los Angeles, e graduou-se na Universidade de Yale. Agora vive em Hollywood e se entrega ao seu gosto por glamour. Seu primeiro romance, Shadow & Bone (Sombra e Ossos), agora é um Best Seller do The New York Times. Para saber mais clique aqui .










Título: Sombra e Ossos
Autor: Leigh Bardugo
Editora: Gutenberg
Tradução: Eric Novello
Páginas: 288
Link do Skoob

Sinopse: Alina Starkov nunca esperou muito da vida. Órfã de guerra, ela tem uma única certeza: o apoio de seu melhor amigo, Maly, e sua inconveniente paixão por ele. Cartógrafa de seu regimento militar, em uma das expedições que precisa fazer à Dobra das Sombras – uma faixa anômala de escuridão repleta dos temíveis predadores volcras –, Alina vê Maly ser atacado pelos monstros e ficar brutalmente ferido. Seu instinto a leva a protegê-lo, quando inesperadamente ela vê revelado um poder latente que nunca suspeitou ter.

“O que é infinito? O universo e a ambição do homem.”

Minha Opinião:  Eu adoro livros de fantasia e este é um prato cheio. Ambientado em um mundo que poderia ser considerado medieval, o primeiro livro da trilogia Grisha faz sua estreia de maneira satisfatória.
A autora utilizou elementos da cultura russa para compor a cultura do reino de Ravka, que está em guerra com todos os demais reinos do continente. Não temos muitos detalhes políticos na trama, pois a história é narrada por Alina, a personagem principal, em primeira pessoa. Somente o primeiro e o último capítulo, intitulados respectivamente "Antes" e "Depois", são narrados em terceira pessoa. Acompanhamos a trajetória da personagem enquanto ela se descobre alguém mais forte do que achava que era e precisa fazer escolhas que mudarão não só a sua vida mas a das pessoas à sua volta.
A narrativa é bem fácil, fluida e, até certo ponto, bem estruturada. Quando somos apresentados aos tipos de Grishas (pessoas que possuem poderes "mágicos" no reino, que podem manipular os elementos e são chamados de "Mestres da Pequena Ciência") existentes não há grandes problemas de compreensão, visto que antes do livro iniciar temos uma pequena explicação sobre os seus tipos, os Corporalki, Etherealki e Materialki. 
O que faltou para que eu pudesse me ambientar melhor neste mundo foi uma boa explicação de como as coisas chegaram ao ponto em que estão hoje em Ravka. Como entraram em guerra, por que os demais reinos não gostam de grishas e etc. É possível que a explicação venha nos próximos dois livros da série, então não considerei muito como ponto negativo da trama.

A partir desse momento, caso não queira ler spoilers, sugiro que pare a leitura.

Alina, que sempre acreditou que não pertencia a lugar algum, pois é órfã e seu melhor amigo e interesse amoroso Maly não lhe dá a devida atenção, de repente vê-se cercada de atenções pois em idade já avançada (essa descoberta é geralmente feita quando se é criança) descobre-se uma Grisha. Porém não uma grisha qualquer e sim uma conjuradora do sol, que é justamente o que o reino de Ravka precisa para livrar-se do "Não Mar", local onde existe uma sombra permanente e localiza-se no meio do reino, antes de chegar ao mar. Essa divisão do reino causa muito transtorno já que eles estão em guerra e Alina agora é a esperança do povo de acabar com essa deficiência. 
A trama acompanha a evolução da personagem para tornar-se mais forte e ser capaz de utilizar o seu poder de maneira a ajudar as pessoas que estão depositando sua confiança nela. Temos a insegurança da personagem enquanto lida com a corte e suas pequenas intrigas; temos as dúvidas quanto aos seus sentimentos em relação ao homem mais charmoso do reino; a dificuldade de se adaptar a um novo estilo de vida e uma grande reviravolta que dará uma nova perspectiva sobre o reino. Confesso que não esperava pelo final e foi uma surpresa muito boa. Sempre gosto quando as personagens evoluem e se mostram fortes (ou cruéis?). 
Recomendo a leitura para quem gosta de fantasia mas não quer intrigas muito pesadas.


Até a próxima, 
Fran.